A minha relação com o esporte mais amado do Brasil, o tal futebol, pode ser resumida em dois momentos marcantes. O primeiro foi quando fiz um gol num campinho improvisado perto da casa da minha mãe, lá pelos idos 80. Na verdade até hoje não sei que diabos eu estava fazendo ali; mas, preciso confessar, a sensação de emplacar um gol é de fato extasiante. Já o segundo momento inesquecível foi quando marquei outro gol; esse contra. E vou te contar, não tem mico maior (por isso não gosto dos tais miquinhos...). O povo do teu time quer beber o teu sangue ali mesmo (cabidela?), num ritual para etnógrafo nenhum botar defeito, e o povo do outro time, fazendo aquelas coreografias ridículas (dancinha da motinha, da mariazinha etc.) vem correndo te cumprimentar, com sorriso debochado. Acho até que esse segundo gol foi o responsável pelos divãs que andei freudiando vida afora. Ai meu superego.
Na real, nunca tive pelos esportes a empolgação típica dos atletas de plantão. Até porque, quem é viciado em atividade física dorme cedo, acorda cedo, faz aquilo geralmente cedo para, sempre cedo, praticar seu esportezinho de cada-dia, cada dia mais cedo. Nem do cocoricó matinal eu gosto. Tô longe de aderir à geração saúde. Talvez, lá na casa dos noventa, eu me arrependa do meu não apego aos esportes e comece a fazer cooper, como aqueles velhinhos que vemos correndo desesperadamente toda manhã e todo final de tarde em parques, nas ruas, nas calçadas, em qualquer lugar. Eu realmente nunca entendi o que eles pretendem com aquela pressa toda, pois, correndo ou não, as canelas estarão esticadas ad eternum antes da próxima missa do galo. Isso quando já não ficam espalhados no meio do caminho, esperando, espasmódicos, a ambulância que sempre chega 32 segundos depois do tarde demais. Sem pressa aí, ô vovô.
E já que o assunto é esporte, após oito meses vivendo em Lyon, resolvi vencer o meu trauma do gol contra e sair da biblioteca onde fico boa parte do dia escutando a minha barriga, para viver um final de semana super mário atlético. Acabei sucumbindo ao convite de, adivinhe, esquiar nos chiquetésimos Alpes franceses. Desculpaí, eu sei que, com tanta criancinha morrendo de fome em Burkina Faso (onde?), fica meio esnobe ficar falando essas coisas de Alpes e tals (eu adoro o tal do `e tals`), mas eu juro que por aqui isso não é sinônimo de status, Louis Vuitton e Cia (`Cia`não é C&A não, viu). É preciso esclarecer que Lyon fica exatamente na região dos Alpes, centro. E a tal estação de esqui fica a 2 horas da Universidade onde moro. Tipo Brasília/Piri. Detalhe, a saída estava prevista para 5h30 da matina (eis a prova da minha `teoria do cedo`, no estranho mundo dos atletas) e, por isso, nem dormi, porque, na noite anterior, eu tinha saído para praticar meu esporte desce-mais-uma preferido e cheguei em casa menos de duas horas antes do horário de ressuscitar para praticar a tal da atividade no gelo. Uma fria. Acho que teria sido mais divertido enfiar a cabeça no freezer.
Eu nem vou dizer que aqui começa o lado B dessa história, porque ela tem, na verdade, dois pés esquerdos. É lado B pra tudo quanto é lado. Esse papo de esquiar não me empolgou em nenhum momento, para ser sincero. Mas eu fiz uns cálculos e concluí que já era tempo de tentar tirar o meu traseiro da cadeira da biblioteca, se não o coitado ia criar raiz. Por precaução, peguei a minha calça dins e fui. E a palhaçada já começa aí, porque eu era o único de jeans na estação de esqui. Na verdade eu era o desencontro em pessoa: calça errada, tênis errados, casaco caríssimo da Galeria Lafayette errado (voltou manchado, tadinho), luva emprestada errada: eu era o zé bunitim em pessoa. Só o percurso de ida já foi traumático, pois, no momento de entrar no carro, o guia apontou para um cantinho onde não cabia nem um grilo e, olhando para mim e para os três mulherões que iriam naquele grupo, sentenciou: `O menor vai ali!`. E adivinhe quem, naquela madrugada de jesus cristinho, era o menor no meio de uma russa, uma siberiana e, vejam vocês, uma brasileira de quase 2m ? Viajei humilhado, naquele naco de espaço. Isso sem considerar o sono de lascar que me assolava; eu não tava de fato dando a mínima para as lindíssimas montanhas de gelo que me observavam e cochichavam, rindo, algo que eu já julgava saber: o que cargas d´água eu estava fazendo ali, no meio de atletas praticamente olímpicos ?!
O local da pousada era de fato um cartão postal. Mas eu fui ficando tenso, porque, após a chegada, todo mundo foi trocar de roupa (menos eu) e começou a aparecer fantasiado: super óculos, super esquis, calças super equipadas, super casacos, toucas super, luvas, croissants; e eu, nada. Eu aluguei um esqui, é verdade, mas não ajudou muito a disfarçar. Isso sem falar que a tal da bota pesava trezentos quilos e cada esqui tinha uns 5 metros (esse povo é louco!). Já na estação o tal instrutor falou três ou quatro palavras para os três ou quatro iniciantes (eu entre eles) e au revoir. Os outros do grupo já eram esquiadores de outros carnavais e, óbvio, nem passaram perto dos pobres mortais iniciantes. Me senti numa cena do Perdidos nos Andes.
A primeira lição era descer uma ladeirinha de nada, sem cair, óbvio. O fato é que, enquanto eu me preparava para o desafio, me arrependia de todas as leituras que não fiz daqueles clássicos da auto-ajuda, do tipo `Superando desafios`,`Como se tornar um vencedor pitbull`, `Amputados vencedores`[ai]. Percebi ainda que, em momentos difíceis como aquele, fé era um item tão importante quanto a pose de esquiador. Figa, fitinha do Pelô, totem; qualquer coisa serviria para ajudar a encarar aquela descidinha sem tanta dor no coração. Acho que desejei até uma imagem do santíssimo made in brazil Padim Ciço, que de gelo nada entende, coitado. Eu tava mesmo desesperado. Lembro ainda que, antes de começar a deslizar, ainda tive tempo de sai-da-freentee xingar pqp pqp pqp a mãe do inventor dos esquiiiis. Brumpt.
É óbvio que uma pessoa que não sabe nem chutar uma bola (eis a verdadeira verdade) jamais conseguirá escorregar garbosamente ladeira abaixo com uns trecos amarrados nos pés, sem saber frear ou virar pra direita/esquerda. Acho que até os velhinhos adeptos do cooper se sairiam melhor do que eu, tamanho o meu desajeito. E tome (des)aventura. O pior é que, ao longo do primeiro dia, sem desgrudar a cara do chão gelado, eu ficava de soslaio observando os poucos iniciantes do meu grupo e, preciso confessar, voduzando, torcendo para que eles, tomara-que-caia-tomara-que-caia, também acariciassem o chão. É a tal velha história da obesidade mórbida (vide texto anterior). Só que o obeso ali era eu. Os outros foram super bem, obrigados.
E, pior, ao voltar do almoço, a quatro mil metros de altura, ainda fiz o favor de retornar com os bastões trocados (voltei de teleférico, né). Agora, reflita, se com os bastões de meu exato tamanho eu mal conseguia me manter de pé, imagine agora com um bastão bem menor do que o outro. De repente eu fiquei coxo! Coxo e roxo: de frio e de hematomas. Resultado, lá pelo meio da tarde, e já ignorando todos os livros de auto-ajuda ignorados, padins ciços e mandingas, dei um basta naquela situação vexatória: larguei todos e fui à caça do álcool perdido, para superar os traumas (físicos e psicológicos) adquiridos num lindo dia nos Alpes. No final das contas, troquei o gelo do chão pelo frio na barriga (cerva belga, geladíssima). Viva as decisões sábias.
À noite ficamos numa pousada assistindo a um jogo de rugby. E, olha, aquilo é mais hard do que Calígula: todo mundo se pegando loucamente. Nunca tinha visto uma partida desse esporte. Uma sem-vergonhice, isso sim. Todo mundo pula em cima de todo mundo, se apalpa, beija as partes do outro, estica, puxa. Sei não... E, para completar o meu final de semana, a programação da manhã seguinte era, adivinhe, mais montanha gelada! Resignado, mantive minha sensata decisão da tarde anterior e não quis mais esquiar. Continuei praticando o levantamento de copos, o qual, diga-se de passagem, ficou prejudicado por causa de minha dor no braço, pois no dia anterior eu fiz tanto esforço para me levantar centenas de vezes do chão que os braços, em vez das pernas, é que amanheceram doloridos. E viva o ano do rubito, sai da freeente, nos Alpes, na França.
terça-feira, 18 de maio de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
obesidade mórbida
Cada um tem sempre uns pecaditos a serem pagos neste mundo de meu deus. Aliás, minha vida tem sido uma penitência só, desde que cheguei. Acho que já estou com crédito para as próximas encarnações, que, espero, sejam menos árduas que a de doutorando na França. Por exemplo, aqui se é obrigado a beber água da torneira. Ora, isso além de deselegante é selvagem. E, acredite, por essas bandas, o bebedouro, esse obscuro objeto de desejo, é tão desconhecido quanto as estranhas mercadorias oferecidas pelos ciganos aos habitantes de Macondo. Você que conhece o Cem anos, de Garcia Marques, deve se recordar das primeiras cenas do livro, principalmente do espanto dos Buendía, os moradores daquela aldeia, ao descobrirem, sempre embasbacados, as mercadorias insólitas que eram levadas pelos tais ciganos. Me lembro de como eles ficaram maravilhados quando viram e, sobretudo, tocaram pela primeira vez o gelo que lhes era oferecido como mercadoria raríssima. Aquilo parecia queimar, parecia vivo e era incrível, maravilhoso. Mais chocante ainda foi quando se assustaram com a boca que saía nas mãos dos ciganos-vendedores: era a boa e velha dentadura. Tudo era aterrorizante e não menos sensacional: fantasmático. As 7 Faces do Dr. Lao ?
Mas, fechando parêntese e voltando ao bebedouro, preciso esclarecer que aqui em Lyon já existe um objeto chamado garrafinha de água mineral, mas eu não vou ficar comprando água em garrafinhas, porque dá muito trabalho; sem exagero. E se a garrafinha for garrafona, pior ainda, porque é pesado transportar. Aqui não tenho carro. Só ando de bicicleta ou a pé (Eh, croissant é doce, mas não é mole não!). No final das contas todo mundo diz que a água de torneira por aqui é potável, mas como bom brasileiro eu desconfio, e como bom estudante sem dinheiro pra rasgar, bebo. E finjo que não é comigo. Uma vez, veja o absurdo da situação, flagrei um menino atracado com uma coisa no banheiro. Ele estava ajoelhado e, curvado, sugava vorazmente algo protuberante. Aquilo foi estranho. Muito estranho. Só depois percebi que o momento kama sutra tava rolando com a torneira da pia. Tudo isso porque Lyon, apesar de ser o berço da sétima arte, a cidade dos irmãos Lumière - inventores do cinema -, ainda não descobriu o bebedouro. Precisamos dar uma aula de civilização para esse povo. Esses chicos franceses...
No entanto beber água da torneira não é nada se comparado à maior expiação que tive de encarar por causa dos meus pecados avoengos (boa essa palavra!). Chama-se: TTT ou Tratamento de Texto para a Tese. E, tenho certeza, me proporcionou bons cem pontos no carnê do baú celestial. O tal TTT é o nome do curso que fui obrigado a engolir. E engoli. Até a primeira aula eu não sabia muito do que se tratava. Achei inclusive muito chique. Mas logo nos primeiros momentos da primeira manhã gelada descobri que era um curso de, acredite, Word 2003! E essa agora... Quem me conhece sabe que o meu apego pela informática é proporcional ao amor do Zidane pelo Materazzi na final da Copa de 2006. Na real, eu odeio quem ama o mundo da tecnologia. Eu odeio a história de baixar programas. Eu odeio réguas de tabulação. Eu odeio saber qual é o novo antivírus. Eu quero a Idade da Pedra (uga-uga), quando nossos tratratratravós pichavam as cavernas. Pelo menos não tinham de escolher fonte, tamanho, itálico, folha de estilos. E quer saber, tem coisa mais bizarra do que aquelas janelinhas com conselhos do Windows?? Elas sempre aparecem gentilmente e com sorriso nos grandes lábios virtuais [opa] perguntando se você ta precisando de alguma coisa quando você está louca e desesperadamente precisando de várias coisas mas sabe que a pororoca da `solução` que eles vão te oferecer não vai trazer a resposta de que você precisa para resolver a pururuca do problema que qualquer pessoa qualquer recém-nascido MENOS VOCÊ saberia resolver naquele momento. (Agora pode respirar, leitor; é que eu fiquei um pouco nervoso. Foi mal).
O tal Tratamento foi brabo. Mas, como disse, encarei. Não teve jeito. E dá-lhe expiação! No entanto o curso teve momentos burlescos. Por exemplo, nunca vou esquecer a cara do professor quando nos chamou à frente da sala para nos mostrar algo que parecia fascinante, incrível (As 7 Faces do Dr. Lao??). O querido monsieur arregalou os olhos e, quase em êxtase, nos ensinou, em bom francês, a arte do ... Ctrl C / Ctrl V (os queridos `copiar e colar`)! E não tem Garcia Marques que possa descrever a cara do tio nos ensinando tal técnica. Ele olhava o Mac (McIntosh, para os in) com tal fascínio, manejava o teclado com tanta paixão que eu julguei não estar compreendendo se o que ele estava querendo dizer era de fato o que ele estava dizendo (tava ensinando a copiar e colar mesmo?! Qualé, jacaré...). Era o próprio cigano fazendo o truque da dentadura. Vivi meus quinze minutos em Macondo. Pior é que ele repetiu esse gesto de nos chamar à frente outras vezes, para exibir o mundo de Oz da informática. Nunca achei que os franceses amassem tanto o tal control C control V. Esquisitos...
E, para não perder o costume, o lado B da história apareceu já no segundo dia de aula, quando o cigano-monsieur solicitou um pequeno exercício super complexo de, adivinhe, mudança do formato da página e numeração do rodapé... O fato é que, após ter-me demorado exaustivamente nas preliminares do dificílimo exercício, na hora agá eu mirava a tela do alienígena computador e não sabia nem por onde começar. De repente aquela atividade ridícula se tornou um teorema que nem Einstein resolveria. Em suma o castigo divino não tardou. Eu, que tava achando tudo meio idiota, créu, não consegui fazer o primeiro exercício. Resultado, todo mundo fez o dever de casa, ali, em menos de 1 minutinho, menos moi. O pior é que o monsieur começou a me olhar esquisito quando ele percebeu o estado lastimável em que eu estava: mais vermelho que o vermelho do tomate mais vermelho da vermelha China. To começando a achar que beber água da torneira na posição 38 do kama sutra é menos traumatizante.
Eu simplesmente perdi o ctrl da história.
E não para por aí não. O diabo do curso foi de fato se complicando e atormentando a minha vida. Eu fui ficando tão tenso com o efeito bloody mary do primeiro exercício que corri às livrarias da cidade para comprar guias de apoio para uso do Word 2003. É bom esclarecer que eu praticamente parei de dormir - e de respirar -, tamanha a minha tensão, durante o tal TTT (ou TPM??). Mas a minha busca de conhecimento não foi em vão, pois achei um livro do tamanho da minha ignorância: Informática para antas. Bem, não é exatamente assim que se deveria traduzir, mas, em bom ctrl português, é a melhor tradução das minhas angústias naquele momento dramáaatico. Comprei logo o livro da versão Windows 2003 e outro com a versão 2007. Claro que não li nenhum dos dois, mas valeram como ctrl tranquilizante para minhas ctrl desventuras en France.
Pior: em cada aula eu era praticamente o último a concluir as tarefas (socorro!). E já que estamos nunca conversa super mário franca devo confessar que o meu maior consolo ao longo da vinte e tantas horas de ctrl agonia regadas a Word 2003 é que na turma havia um aluno que sempre terminava depois de mim. Isso quando ele conseguia terminar (ele deve estar no sétimo ou vigésimo nono ano de doutorado e pelo jeito sem previsão de conclusão da tese; eu estou no primeiro meio ano, se serve de alento). O fato é que eu nunca agradeci tanto a Alá a existência de um cristão (na verdade, ele era islâmico), nesse pedaço do planeta onde to pagando meus pecados. Engraçado é que em cada aula a primeira pessoa que eu procurava na turma era o meu coleguinha. Afinal, quando se quer se sentir mais magro, basta ficar ctrl diante de uma pessoa ctrl mais gorda do que você. Eu acho que serei eternamente grato ao meu amigo portador de obesidade mórbida. E viva ctrl o ano do rubito, copiando, colando e super adepto da prática do kama sutra, na França.
Mas, fechando parêntese e voltando ao bebedouro, preciso esclarecer que aqui em Lyon já existe um objeto chamado garrafinha de água mineral, mas eu não vou ficar comprando água em garrafinhas, porque dá muito trabalho; sem exagero. E se a garrafinha for garrafona, pior ainda, porque é pesado transportar. Aqui não tenho carro. Só ando de bicicleta ou a pé (Eh, croissant é doce, mas não é mole não!). No final das contas todo mundo diz que a água de torneira por aqui é potável, mas como bom brasileiro eu desconfio, e como bom estudante sem dinheiro pra rasgar, bebo. E finjo que não é comigo. Uma vez, veja o absurdo da situação, flagrei um menino atracado com uma coisa no banheiro. Ele estava ajoelhado e, curvado, sugava vorazmente algo protuberante. Aquilo foi estranho. Muito estranho. Só depois percebi que o momento kama sutra tava rolando com a torneira da pia. Tudo isso porque Lyon, apesar de ser o berço da sétima arte, a cidade dos irmãos Lumière - inventores do cinema -, ainda não descobriu o bebedouro. Precisamos dar uma aula de civilização para esse povo. Esses chicos franceses...
No entanto beber água da torneira não é nada se comparado à maior expiação que tive de encarar por causa dos meus pecados avoengos (boa essa palavra!). Chama-se: TTT ou Tratamento de Texto para a Tese. E, tenho certeza, me proporcionou bons cem pontos no carnê do baú celestial. O tal TTT é o nome do curso que fui obrigado a engolir. E engoli. Até a primeira aula eu não sabia muito do que se tratava. Achei inclusive muito chique. Mas logo nos primeiros momentos da primeira manhã gelada descobri que era um curso de, acredite, Word 2003! E essa agora... Quem me conhece sabe que o meu apego pela informática é proporcional ao amor do Zidane pelo Materazzi na final da Copa de 2006. Na real, eu odeio quem ama o mundo da tecnologia. Eu odeio a história de baixar programas. Eu odeio réguas de tabulação. Eu odeio saber qual é o novo antivírus. Eu quero a Idade da Pedra (uga-uga), quando nossos tratratratravós pichavam as cavernas. Pelo menos não tinham de escolher fonte, tamanho, itálico, folha de estilos. E quer saber, tem coisa mais bizarra do que aquelas janelinhas com conselhos do Windows?? Elas sempre aparecem gentilmente e com sorriso nos grandes lábios virtuais [opa] perguntando se você ta precisando de alguma coisa quando você está louca e desesperadamente precisando de várias coisas mas sabe que a pororoca da `solução` que eles vão te oferecer não vai trazer a resposta de que você precisa para resolver a pururuca do problema que qualquer pessoa qualquer recém-nascido MENOS VOCÊ saberia resolver naquele momento. (Agora pode respirar, leitor; é que eu fiquei um pouco nervoso. Foi mal).
O tal Tratamento foi brabo. Mas, como disse, encarei. Não teve jeito. E dá-lhe expiação! No entanto o curso teve momentos burlescos. Por exemplo, nunca vou esquecer a cara do professor quando nos chamou à frente da sala para nos mostrar algo que parecia fascinante, incrível (As 7 Faces do Dr. Lao??). O querido monsieur arregalou os olhos e, quase em êxtase, nos ensinou, em bom francês, a arte do ... Ctrl C / Ctrl V (os queridos `copiar e colar`)! E não tem Garcia Marques que possa descrever a cara do tio nos ensinando tal técnica. Ele olhava o Mac (McIntosh, para os in) com tal fascínio, manejava o teclado com tanta paixão que eu julguei não estar compreendendo se o que ele estava querendo dizer era de fato o que ele estava dizendo (tava ensinando a copiar e colar mesmo?! Qualé, jacaré...). Era o próprio cigano fazendo o truque da dentadura. Vivi meus quinze minutos em Macondo. Pior é que ele repetiu esse gesto de nos chamar à frente outras vezes, para exibir o mundo de Oz da informática. Nunca achei que os franceses amassem tanto o tal control C control V. Esquisitos...
E, para não perder o costume, o lado B da história apareceu já no segundo dia de aula, quando o cigano-monsieur solicitou um pequeno exercício super complexo de, adivinhe, mudança do formato da página e numeração do rodapé... O fato é que, após ter-me demorado exaustivamente nas preliminares do dificílimo exercício, na hora agá eu mirava a tela do alienígena computador e não sabia nem por onde começar. De repente aquela atividade ridícula se tornou um teorema que nem Einstein resolveria. Em suma o castigo divino não tardou. Eu, que tava achando tudo meio idiota, créu, não consegui fazer o primeiro exercício. Resultado, todo mundo fez o dever de casa, ali, em menos de 1 minutinho, menos moi. O pior é que o monsieur começou a me olhar esquisito quando ele percebeu o estado lastimável em que eu estava: mais vermelho que o vermelho do tomate mais vermelho da vermelha China. To começando a achar que beber água da torneira na posição 38 do kama sutra é menos traumatizante.
Eu simplesmente perdi o ctrl da história.
E não para por aí não. O diabo do curso foi de fato se complicando e atormentando a minha vida. Eu fui ficando tão tenso com o efeito bloody mary do primeiro exercício que corri às livrarias da cidade para comprar guias de apoio para uso do Word 2003. É bom esclarecer que eu praticamente parei de dormir - e de respirar -, tamanha a minha tensão, durante o tal TTT (ou TPM??). Mas a minha busca de conhecimento não foi em vão, pois achei um livro do tamanho da minha ignorância: Informática para antas. Bem, não é exatamente assim que se deveria traduzir, mas, em bom ctrl português, é a melhor tradução das minhas angústias naquele momento dramáaatico. Comprei logo o livro da versão Windows 2003 e outro com a versão 2007. Claro que não li nenhum dos dois, mas valeram como ctrl tranquilizante para minhas ctrl desventuras en France.
Pior: em cada aula eu era praticamente o último a concluir as tarefas (socorro!). E já que estamos nunca conversa super mário franca devo confessar que o meu maior consolo ao longo da vinte e tantas horas de ctrl agonia regadas a Word 2003 é que na turma havia um aluno que sempre terminava depois de mim. Isso quando ele conseguia terminar (ele deve estar no sétimo ou vigésimo nono ano de doutorado e pelo jeito sem previsão de conclusão da tese; eu estou no primeiro meio ano, se serve de alento). O fato é que eu nunca agradeci tanto a Alá a existência de um cristão (na verdade, ele era islâmico), nesse pedaço do planeta onde to pagando meus pecados. Engraçado é que em cada aula a primeira pessoa que eu procurava na turma era o meu coleguinha. Afinal, quando se quer se sentir mais magro, basta ficar ctrl diante de uma pessoa ctrl mais gorda do que você. Eu acho que serei eternamente grato ao meu amigo portador de obesidade mórbida. E viva ctrl o ano do rubito, copiando, colando e super adepto da prática do kama sutra, na França.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
duplo twist carpado
O que é ser francês? É a pergunta do momento do lado de cá. É o atual debate público lançado pelo governo. Gozado é que, enquanto no Brasil ainda perguntamos quem matou odete roitman, aqui se quer saber qual o teor de edith piaf no sangue do povo. Vai uma amélie poulain aí?! Esses chicos franceses são de fato esquisitos. Se eu tivesse de responder a tais questões sobre a identidade francesa, diria que ser francês-homem, machoman, é fazer pipi no meio da rua, em plena tarde, numa avenida movimentada, como se fosse a coisa mais normal da França. Eu vi. Ta registrado no meio das minhas retinas tão fatigadas: no meio do caminho tinha um mijão, tinha um mijão no meio do caminho. De repente isso é chique e eu nem to sabendo.
Já se a pergunta se referir às francesa-sas, aí a coisa muda de figura. Sim, porque to pra ver mulherada mais cheia de coco (leia coCO) chanel. Já to é começando a ficar irritado com tanta polidez. Você mal olha pras criaturas e elas já vão dizendo: pardon pardon ui ui ui merci merci. É biquinho demais pro meu saquinho. Acho que vai ser mais fácil a tal Torre Reiféu passar pelo buraco de uma agulha do mundo da alta costura do que eu ver uma francesa ui ui ui rodar a baiana por aqui (baiano demais??), subir nas tamancas ou mesmo comer com farinha a orelha da outra - como se faz no Nordeste quando a quenga (boa essa palavra) rouba o marido da fulana. Aliás, esse casamento de orelha com farinha me deu uma vontade de comer feijoada...
O fato é que não tem bonjour que chegue para as francesas. Haja polidez. Isso cansa. Eu queria mesmo era ver uma francesa liberar um super mário pum, daqueles mega altos e estridentes, tipo tsunami ratatatá metralhadora duplo twist carpado com mortal na segunda pirueta quarteirão com queijo mega sena acumulada de natal, só para ver como elas se sairiam, refinadíssimas, pardon pardon, dessa embaraçosa situação. Mas acho que elas só cometeriam esse gasoso ato falho, se o fizessem, no Père Lachaise, depois do décimo aniversário de passamento e ainda borrifando parfum pra disfarçar o futuumm.
Mas a identidade francesa tem mesmo a ver é com livros, leitura, debate. Por exemplo, na biblioteca, onde tenho passado praticamente todos os minutos da minha existência tupiniquim desde que atravessei o querido Atlântico, vejo sempre um senhor muito sisudo com dois pares de fones de ouvido: um grandão e outro grandinho. Acho curioso porque ele usa só os fones, sem o aparelhinho que nunca sei como se chama, se aÍ Pode, aÍ Não Pode, MP3, MP8, RPM (esse eu conheço!). E acho mais curioso ainda porque, como ele é slim, a abundância dos fones contrasta com a desabundância de suas formas, embora sempre muito elegantes, visto se tratar de um monsieur francês, na seção de filosofia: o sartre, em fone e osso.
Se bem que ele deve mesmo é estar num estágio avançado de transtorno obsessivo compulsivo (o querido toc), porque, se a biblioteca é tão silenciosa, pra que os tais fones? O lugar é tão pacato que chego a praticamente ouvir a neve lá fora, derretendo (nada de glamour). Inclusive, vira e mexe, escuto, batendo à minha porta, qualquer coisa do tipo: toc toc grurruunhuunhunhu (uma metralhadora?), até que percebo se tratar da minha própria barriga, elucubrando algo que nunca compreendo. Não sei se é ressaca das vagens que tenho encontrado em praticamente todas as refeições (eles a-do-ram vagem! esquisitos...), o efeito tarja-preta das teorias que tenho tentado deglutir ou alucinação pura e simples, mas a minha barriga soltou a língua aqui na França. Tem de fato falado pelos cotovelos, e não é em francês não! Uma vez, srugsgruuuunsgstoooong, lá vem a minha barriguinha de novo querendo meter a colher na conversa: ela fez um barulho tão alto que eu quase respondi, achando que fosse a voz da pessoa com quem eu estava conversando. Aí a luz se fez: minha barriga é ventríloqua! Valha-me. Ainda bem que parei de assistir a filmes como ´Alien - o Oitavo Passageiro´, ´O bebê de Rosemary´ , ´Procurando Nemo´ e afins, se não ia começar a pensar coisas.
E aqui começa o bom e velho lado B de mais um capítulo de minha sofridíssima vida en rose, pois, na última viagem a Paris, onde tenho ido uma vez por mês para um curso (nada de glamour), eu tive um treco (o bom e velho piriri?), em plena jornada de estudos, lá lá, na cidade lux. Na verdade, passei mal durante toda a tarde, mas ainda consegui manter a pose sartreana de aluno atento e não dei ouvidos para minha gruuumgristummm companheira falante. Só me interessavam naquele momento Ari e Tonton (meus amigos Aristóteles e Platão). No entanto, o drama foi me perceber, após a aula, vagando pelos longos e cultuados labirintos subterrâneos do metrô parisiense, passos larguíssimos, ouvindo os artistas exibindo seus dotes musicais, gente descolada pra lá e pra cá, a multietnia sobre a qual conversamos no último texto, e eu, que merda, no meio de tudo isso, pensando só em uma coisa: duplo twist carpado.
Na verdade passei bem mal ao longo da longa noite. Tive até febre - coisa que não me acontecia há anos. Depois fiquei sabendo que fui, acho, vítima de um tal vírus intestinal que estava atacando loucamente a francesada (e eu). Vem não se sabe de onde e vai embora, 24h depois, sem mais nem menos, à francesa, exatamente como fez o querido corpo estranho que visitou meu âmago por algumas horinhas. Essa pontualidade virótica nunca vi em Brasília. No meu querido país, quando um vírus chega, vai ficando, vira amigo íntimo no primeiro encontro e já te convida pra ser padrinho do filho dele no próximo domingo de manhã, com direito a churrasquinho na laje e vista para o mar. Sem chance: vírus que é brasileiro é brasileiro mesmo e gruuumgristummm skindododô não desiste nunca (identidade brasileira ??).
E quer saber? Não sei muito sobre identidade francesa, mas estar na França tem a ver com ouvir a própria barriga na bíblio - além dos pardon pardon 365 vezes por dia -, comer vagem vertiginosamente como se fosse algo normal e hospedar um vírus por 24 horas, nem 1 minutinho a mais, enquanto se caminha a passos larguíssimos pelas galerias do metrô de Paris. Voilà. Por isso e pelos próximos dramas, viva o ano do rubito e sua fiel barriga srugsgruuuunsgstoooong, na França.
Já se a pergunta se referir às francesa-sas, aí a coisa muda de figura. Sim, porque to pra ver mulherada mais cheia de coco (leia coCO) chanel. Já to é começando a ficar irritado com tanta polidez. Você mal olha pras criaturas e elas já vão dizendo: pardon pardon ui ui ui merci merci. É biquinho demais pro meu saquinho. Acho que vai ser mais fácil a tal Torre Reiféu passar pelo buraco de uma agulha do mundo da alta costura do que eu ver uma francesa ui ui ui rodar a baiana por aqui (baiano demais??), subir nas tamancas ou mesmo comer com farinha a orelha da outra - como se faz no Nordeste quando a quenga (boa essa palavra) rouba o marido da fulana. Aliás, esse casamento de orelha com farinha me deu uma vontade de comer feijoada...
O fato é que não tem bonjour que chegue para as francesas. Haja polidez. Isso cansa. Eu queria mesmo era ver uma francesa liberar um super mário pum, daqueles mega altos e estridentes, tipo tsunami ratatatá metralhadora duplo twist carpado com mortal na segunda pirueta quarteirão com queijo mega sena acumulada de natal, só para ver como elas se sairiam, refinadíssimas, pardon pardon, dessa embaraçosa situação. Mas acho que elas só cometeriam esse gasoso ato falho, se o fizessem, no Père Lachaise, depois do décimo aniversário de passamento e ainda borrifando parfum pra disfarçar o futuumm.
Mas a identidade francesa tem mesmo a ver é com livros, leitura, debate. Por exemplo, na biblioteca, onde tenho passado praticamente todos os minutos da minha existência tupiniquim desde que atravessei o querido Atlântico, vejo sempre um senhor muito sisudo com dois pares de fones de ouvido: um grandão e outro grandinho. Acho curioso porque ele usa só os fones, sem o aparelhinho que nunca sei como se chama, se aÍ Pode, aÍ Não Pode, MP3, MP8, RPM (esse eu conheço!). E acho mais curioso ainda porque, como ele é slim, a abundância dos fones contrasta com a desabundância de suas formas, embora sempre muito elegantes, visto se tratar de um monsieur francês, na seção de filosofia: o sartre, em fone e osso.
Se bem que ele deve mesmo é estar num estágio avançado de transtorno obsessivo compulsivo (o querido toc), porque, se a biblioteca é tão silenciosa, pra que os tais fones? O lugar é tão pacato que chego a praticamente ouvir a neve lá fora, derretendo (nada de glamour). Inclusive, vira e mexe, escuto, batendo à minha porta, qualquer coisa do tipo: toc toc grurruunhuunhunhu (uma metralhadora?), até que percebo se tratar da minha própria barriga, elucubrando algo que nunca compreendo. Não sei se é ressaca das vagens que tenho encontrado em praticamente todas as refeições (eles a-do-ram vagem! esquisitos...), o efeito tarja-preta das teorias que tenho tentado deglutir ou alucinação pura e simples, mas a minha barriga soltou a língua aqui na França. Tem de fato falado pelos cotovelos, e não é em francês não! Uma vez, srugsgruuuunsgstoooong, lá vem a minha barriguinha de novo querendo meter a colher na conversa: ela fez um barulho tão alto que eu quase respondi, achando que fosse a voz da pessoa com quem eu estava conversando. Aí a luz se fez: minha barriga é ventríloqua! Valha-me. Ainda bem que parei de assistir a filmes como ´Alien - o Oitavo Passageiro´, ´O bebê de Rosemary´ , ´Procurando Nemo´ e afins, se não ia começar a pensar coisas.
E aqui começa o bom e velho lado B de mais um capítulo de minha sofridíssima vida en rose, pois, na última viagem a Paris, onde tenho ido uma vez por mês para um curso (nada de glamour), eu tive um treco (o bom e velho piriri?), em plena jornada de estudos, lá lá, na cidade lux. Na verdade, passei mal durante toda a tarde, mas ainda consegui manter a pose sartreana de aluno atento e não dei ouvidos para minha gruuumgristummm companheira falante. Só me interessavam naquele momento Ari e Tonton (meus amigos Aristóteles e Platão). No entanto, o drama foi me perceber, após a aula, vagando pelos longos e cultuados labirintos subterrâneos do metrô parisiense, passos larguíssimos, ouvindo os artistas exibindo seus dotes musicais, gente descolada pra lá e pra cá, a multietnia sobre a qual conversamos no último texto, e eu, que merda, no meio de tudo isso, pensando só em uma coisa: duplo twist carpado.
Na verdade passei bem mal ao longo da longa noite. Tive até febre - coisa que não me acontecia há anos. Depois fiquei sabendo que fui, acho, vítima de um tal vírus intestinal que estava atacando loucamente a francesada (e eu). Vem não se sabe de onde e vai embora, 24h depois, sem mais nem menos, à francesa, exatamente como fez o querido corpo estranho que visitou meu âmago por algumas horinhas. Essa pontualidade virótica nunca vi em Brasília. No meu querido país, quando um vírus chega, vai ficando, vira amigo íntimo no primeiro encontro e já te convida pra ser padrinho do filho dele no próximo domingo de manhã, com direito a churrasquinho na laje e vista para o mar. Sem chance: vírus que é brasileiro é brasileiro mesmo e gruuumgristummm skindododô não desiste nunca (identidade brasileira ??).
E quer saber? Não sei muito sobre identidade francesa, mas estar na França tem a ver com ouvir a própria barriga na bíblio - além dos pardon pardon 365 vezes por dia -, comer vagem vertiginosamente como se fosse algo normal e hospedar um vírus por 24 horas, nem 1 minutinho a mais, enquanto se caminha a passos larguíssimos pelas galerias do metrô de Paris. Voilà. Por isso e pelos próximos dramas, viva o ano do rubito e sua fiel barriga srugsgruuuunsgstoooong, na França.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
homem-boom!!
Viver em uma cidade multiétnica é fascinante, porque a cada minuto você vê um tipo bem curioso que em geral só se encontra naquelas edições da National Geographic que vira e mexe encontramos banguelas e desbotadas nuns poucos consultórios de dermatologia ultrarrefinados (yes, eu frequento; ou você acha que eu mantenho esse look garotoxxx só com a água de Araxá?). Se bem que, quando o assunto é fauna, eu prefiro mesmo é a revista Caras, pois só ali vemos a Suzana Vieira, gorda e senhora do destino, na praia, desfilando com o seu novo pm. Tem décadence melhor do que essa? Por isso não troco Caras por NGeo. nenhuma.
Aliás, falando em NGeo., que graça tem aquele mico-leão que já está pra ser extinto desde que me entendo por gente e ainda continua lá, em todas as edições da revista, mais loiro do que a Ana Maria [que também frequenta a mesmíssima (ilha de) Caras, geralmente com um pm amigo do pm da SuVieira] ? Daqui a pouco vão colocar o tal miquinho-douradinho nas campanhas pró virgindade, ou no Criança-ai-que-saco-Esperança; dizem até que ele anda tomanda chá das 5, às 5, com a rainha da Inglaterra, tal o seu prestígio. Quer saber, esses gremlins almofadinhas já me torraram, além de já terem enterrado muitas espécies (inclusive o pobre do Darwin). No final das contas, tão mais vivos que o branco mais branco de Omo Branco Total. To pensando até em encomendar ao greenpearcing (perco o leitor, mas não perco o trocadilho) uma campanha para extinguirmos de vez essa raça.
Peraí, eu só comecei a falar de mico-leão, SuVieira e outros quadrúpedes, bravos merecedores da extinção, porque a diversidade aqui em Lyon é de fato interessante. E me parece que as raças que vejo por aqui (árabes, japas, indianos, eu...) soam mais exóticas do que as que desfilam na Festa de Parintins. Por exemplo, na minha segunda semana, voltando da faculdade, numa espécie de bonde high-tech - que dá um ar futurista pra cidade, que é medieval-, eu estava num aperto só, dentro do tram (é como se chama esse tipo de bondinho/trem), e acabei tocando (no bom sentido) uma moça, muçulmanamente trajada a caráter. Achei aquilo lindo. Em que outra circunstância eu poderia ficar tão próximo de alguém duma cultura tão diferente? Só durante a leitura da NGeo., no consultório que não mais frequento, por culpa dos micos-leões e da PM!
Outro dia mesmo, no mesmo bonde, indo a algum lugar debaixo de muita neve (enquanto o Rio era 40º), enquanto eu arranhava um diálogo com uma família engraçadíssima de kosovares (koso o quê??), tinha sob a minha mira uma família de africanos com um bebê que usava uma super peruca, tipo rastafári (cuti-cuti), ao mesmo tempo em que eu observava dois japoneses mais à frente – se bem que esses não levo em consideração, pois é incrível como sempre tem um japoronga (chinês? coreano? Spectreman ?) em tudo quanto é buraco na França (dizem até que a Gioconda agora se chama `Gioconda-né` ). Acho até que vi alguns franceses no bonde, mas pouco importa neste texto. Ainda sobre a família excêntrica de Kosovo, é bom esclarecer que sua etnia, sim, quase foi `lavada`, há alguns anos, enquanto o fdp do mico-leão tava numa sessão de fotos com o Sebastião Salgado pra próxima capa de alguma revista cult. Bichos escrotos, saiam dos esgotos...
Mas como todo lado A traz sempre um lado B, eu parei de romantizar a multietnia quando toquei, de forma, digamos, mais íntima, um muçulmano, na madrugada. É isso mesmo. Eu voltava de bicicleta de um bar e, no meio do caminho, cruzei com um táxi. O motorista, um árabe com cara de poucos amigos (aliás, tenho a impressão de que todos estão sempre nesse estado delicado), avançou o carro e, homembombamente, freou de repente (rimou!). Resultado, eu e a bicicleta beijamos o chão, no meio da noite, no meio da rua, em Lyon, na região Rhône-Alpes, na França. Se você se lembra do nosso amiguinho Hulk (não é o genérico Luciano caras Huck marido da SuVieira de amanhã: Angélica) - e falo do legítimo e incrível Hulk - vai entender como me soergui (gostou do verbo?). Foi Batman e Robin à primeira vista: SLEPT! VRUM! TROM! BRUING! ZRUMP! CHREPT! FROMM! Lembro inclusive que no calor da troca cultural, segurei a cabeça dele por uns 23 segundos (22? 14? -2?) e, num golpe de matar o Maguila de inveja, mostrei quem mandava (culpa das cervas).
Esse encontro cultural durou bons 10 minutos e com direito à francesada toda abrindo a janela, às 3 da matina. O pior é que acho que euzito fiz a barbeiragem. Mas nunca fui atrás da verdade - deixo prum futuro episódio do Arquivo X. O fato é que eu não podia perder o ar de ofendido. E dá-lhe (e tome) cocorote! Tudo parece divertido agora, mas, na hora, jurei que ele ia detonar a bomba que todo homem-boom guarda no lado esquerdo do peito. Eu ouvia inclusive a Fatita Bernardes (que é amiga da SuVieira, da Angélica e do mico-leão fdp), falando em rede nacional: `Brasileiro detona homem-bomba no coração da França`, ou `Explosão cultural na França` ou, numa chamada mais governo Lula, `Filho de nordestinos toca o terror na França`. Praticamente vivi os meus 5 minutos de pitboy – globetrotter-globeleza.
Até agora não me deportaram.
Pensando bem, eu devia ter fotografado o hematoma, no braço, que me acompanhou durante uma semana. Minha mãe ia morrer de orgulho ao ver que seu filho anda honrando o lado Virgulino que corre em minhas veias (com sotaque francês, s´il vous plaît !). Hoje, toda vez que passo por um Mercedes (os táxis aqui são todos Mercedes e todos conduzidos por árabes), lembro o meu encontro multiétnico lyonense. Melhor do que NGeo. Melhor do que Caras. Eis a aventura da miscigenação. E viva o ano do rubito-pitboy-globetrotter, na França.
Aliás, falando em NGeo., que graça tem aquele mico-leão que já está pra ser extinto desde que me entendo por gente e ainda continua lá, em todas as edições da revista, mais loiro do que a Ana Maria [que também frequenta a mesmíssima (ilha de) Caras, geralmente com um pm amigo do pm da SuVieira] ? Daqui a pouco vão colocar o tal miquinho-douradinho nas campanhas pró virgindade, ou no Criança-ai-que-saco-Esperança; dizem até que ele anda tomanda chá das 5, às 5, com a rainha da Inglaterra, tal o seu prestígio. Quer saber, esses gremlins almofadinhas já me torraram, além de já terem enterrado muitas espécies (inclusive o pobre do Darwin). No final das contas, tão mais vivos que o branco mais branco de Omo Branco Total. To pensando até em encomendar ao greenpearcing (perco o leitor, mas não perco o trocadilho) uma campanha para extinguirmos de vez essa raça.
Peraí, eu só comecei a falar de mico-leão, SuVieira e outros quadrúpedes, bravos merecedores da extinção, porque a diversidade aqui em Lyon é de fato interessante. E me parece que as raças que vejo por aqui (árabes, japas, indianos, eu...) soam mais exóticas do que as que desfilam na Festa de Parintins. Por exemplo, na minha segunda semana, voltando da faculdade, numa espécie de bonde high-tech - que dá um ar futurista pra cidade, que é medieval-, eu estava num aperto só, dentro do tram (é como se chama esse tipo de bondinho/trem), e acabei tocando (no bom sentido) uma moça, muçulmanamente trajada a caráter. Achei aquilo lindo. Em que outra circunstância eu poderia ficar tão próximo de alguém duma cultura tão diferente? Só durante a leitura da NGeo., no consultório que não mais frequento, por culpa dos micos-leões e da PM!
Outro dia mesmo, no mesmo bonde, indo a algum lugar debaixo de muita neve (enquanto o Rio era 40º), enquanto eu arranhava um diálogo com uma família engraçadíssima de kosovares (koso o quê??), tinha sob a minha mira uma família de africanos com um bebê que usava uma super peruca, tipo rastafári (cuti-cuti), ao mesmo tempo em que eu observava dois japoneses mais à frente – se bem que esses não levo em consideração, pois é incrível como sempre tem um japoronga (chinês? coreano? Spectreman ?) em tudo quanto é buraco na França (dizem até que a Gioconda agora se chama `Gioconda-né` ). Acho até que vi alguns franceses no bonde, mas pouco importa neste texto. Ainda sobre a família excêntrica de Kosovo, é bom esclarecer que sua etnia, sim, quase foi `lavada`, há alguns anos, enquanto o fdp do mico-leão tava numa sessão de fotos com o Sebastião Salgado pra próxima capa de alguma revista cult. Bichos escrotos, saiam dos esgotos...
Mas como todo lado A traz sempre um lado B, eu parei de romantizar a multietnia quando toquei, de forma, digamos, mais íntima, um muçulmano, na madrugada. É isso mesmo. Eu voltava de bicicleta de um bar e, no meio do caminho, cruzei com um táxi. O motorista, um árabe com cara de poucos amigos (aliás, tenho a impressão de que todos estão sempre nesse estado delicado), avançou o carro e, homembombamente, freou de repente (rimou!). Resultado, eu e a bicicleta beijamos o chão, no meio da noite, no meio da rua, em Lyon, na região Rhône-Alpes, na França. Se você se lembra do nosso amiguinho Hulk (não é o genérico Luciano caras Huck marido da SuVieira de amanhã: Angélica) - e falo do legítimo e incrível Hulk - vai entender como me soergui (gostou do verbo?). Foi Batman e Robin à primeira vista: SLEPT! VRUM! TROM! BRUING! ZRUMP! CHREPT! FROMM! Lembro inclusive que no calor da troca cultural, segurei a cabeça dele por uns 23 segundos (22? 14? -2?) e, num golpe de matar o Maguila de inveja, mostrei quem mandava (culpa das cervas).
Esse encontro cultural durou bons 10 minutos e com direito à francesada toda abrindo a janela, às 3 da matina. O pior é que acho que euzito fiz a barbeiragem. Mas nunca fui atrás da verdade - deixo prum futuro episódio do Arquivo X. O fato é que eu não podia perder o ar de ofendido. E dá-lhe (e tome) cocorote! Tudo parece divertido agora, mas, na hora, jurei que ele ia detonar a bomba que todo homem-boom guarda no lado esquerdo do peito. Eu ouvia inclusive a Fatita Bernardes (que é amiga da SuVieira, da Angélica e do mico-leão fdp), falando em rede nacional: `Brasileiro detona homem-bomba no coração da França`, ou `Explosão cultural na França` ou, numa chamada mais governo Lula, `Filho de nordestinos toca o terror na França`. Praticamente vivi os meus 5 minutos de pitboy – globetrotter-globeleza.
Até agora não me deportaram.
Pensando bem, eu devia ter fotografado o hematoma, no braço, que me acompanhou durante uma semana. Minha mãe ia morrer de orgulho ao ver que seu filho anda honrando o lado Virgulino que corre em minhas veias (com sotaque francês, s´il vous plaît !). Hoje, toda vez que passo por um Mercedes (os táxis aqui são todos Mercedes e todos conduzidos por árabes), lembro o meu encontro multiétnico lyonense. Melhor do que NGeo. Melhor do que Caras. Eis a aventura da miscigenação. E viva o ano do rubito-pitboy-globetrotter, na França.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
massacre da serra elétrica
Todo mundo ta careca de saber que a Europa tem uma estátua em cada esquina. Tem estátua de tudo quanto é jeito: só a cabeça; só o corpo sem a cabeça (não tô falando de mula sem cabeça não, isso é folclore brasileiro); corpo todo; só corpo sem membros (a Vênus de Milo que o diga); só braço procurando corpo; alma penada etc. O Louvre tá cheio de pedaço de estátua: é mais ou menos uma versão do massacre da serra elétrica glamurizado, voilà. O mais interessante é que se você não sabe nada sobre a estátua, ela é só mais uma na multidão. Mas depois de descobrir que aquele cotoco sobreviveu à guerra de Tróia, ao mar de Moisés (antes ou depois do Dilúvio??), ao inferno de Dante, à batalha de Jason versus Krueger, aí você fala: uau, que lindo!!
Dá pra contar a história de cada cidade daqui só pelas estátuas. Bem, acho que é pra isso que essas pedras de fino trato servem. Uma vez, em Paris (ai, ai), num décimo andar qualquer, percebi, de madrugada, via reflexo na vidraça, uma silhueta super estátua e pensei com meus botões tupiniquins ``essa cidade é chique mesmo, tem até estátua no topo dos prédios``; só que, na manhã seguinte, ao abrir a janela, dei de cara com uma espécie de tuba meio desengonçada (acho que era um cano gigante) e, claro, disfarcei, olhei pros dois lados e fingi que não era comigo. Acho que ainda cumprimentei um pássaro, mas ele, como todos os franceses, fez ar blasé, bateu asas e voou.
Dia desses, resolvi encontrar um amigo pra tomar uma cerveja e jogar conversa fora. Me lembro bem que o local combinado era ``debaixo da pata do cavalo``. É isso mesmo. E a tal pata do cavalo, segundo meu interlocutor, era o local que todo lyonense conhece de cor. Eu achei gozada a referência e, claro, não entendi. Ele explicou que a estátua, montada num grande cavalo, era Luís XIV - o rei mais queridinho por aqui e que passou todo o seu longo reinado sem tomar banho (Eu sei o que ele fez no verão passado!). Bem, após a explicação sobre o local, visualizei no ato o tal cavalo e disse na bucha: claro que sei onde é; em 1h te encontro lá. Desliguei, me sentindo o próprio filho de Lyon.
Bem embaixo da dita pata esperei dez, vinte, quarenta minutos. Eu já estava começando a achar esses chicos franceses pouquíssimo britânicos, até que eu resolvi examinar se a cara do tal do Louis XIV era amigável (eu só tinha olhos pro tal do cavalo até aquele momento) e, acredite, o pânico foi imediato, porque ao mirar o nosso amigo, vi que ele era, digamos ... ela!! Tudo bem que hoje em dia é fácil mudar de sexo, fazer e desfazer cirurgia, aumentar e diminuir os trem de cima e os treco debaixo; mas, peraí, na época de Louis XIV não existia nem movimento gblt (movimento de gays, berinjelas, lésbicas e talibãs), quanto mais mudança de sexo. Desse modo, aquela mulher que eu mirava, incrédulo, não podia ser nosso amigo Luisinho repaginado, de jeito nenhum. Maldição!! Mais uma vez troquei Asa Sul por Asa Norte!
Pra resumir, eu fui parar debaixo do cavalo errado (opa, isso ficou ambíguo). A tal mulher montada no tal cavalo da tal praça onde eu estava não tinha nada de Rei Sol (nome de guerra de Luís XIV). Ela, a estátua, é, na verdade, a alegoria de um dos rios que atravessam Lyon. No dia seguinte, soube ainda que Luís XIV viveu e morreu macho man, não tinha mudado de sexo não. E o resultado disso tudo é que perdi o programa do sábado, porque não tinha celular pra perguntar onde diabos eu deveria ter ido. Voltei para casa indignado e rezando para que a estátua que certamente farão do Sarkozy esteja montada num porsche prata; aí, dificilmente, vou confundir um cavalo com o outro. E viva o ano do Rubito, cada dia mais perdidim, na França!
Dá pra contar a história de cada cidade daqui só pelas estátuas. Bem, acho que é pra isso que essas pedras de fino trato servem. Uma vez, em Paris (ai, ai), num décimo andar qualquer, percebi, de madrugada, via reflexo na vidraça, uma silhueta super estátua e pensei com meus botões tupiniquins ``essa cidade é chique mesmo, tem até estátua no topo dos prédios``; só que, na manhã seguinte, ao abrir a janela, dei de cara com uma espécie de tuba meio desengonçada (acho que era um cano gigante) e, claro, disfarcei, olhei pros dois lados e fingi que não era comigo. Acho que ainda cumprimentei um pássaro, mas ele, como todos os franceses, fez ar blasé, bateu asas e voou.
Dia desses, resolvi encontrar um amigo pra tomar uma cerveja e jogar conversa fora. Me lembro bem que o local combinado era ``debaixo da pata do cavalo``. É isso mesmo. E a tal pata do cavalo, segundo meu interlocutor, era o local que todo lyonense conhece de cor. Eu achei gozada a referência e, claro, não entendi. Ele explicou que a estátua, montada num grande cavalo, era Luís XIV - o rei mais queridinho por aqui e que passou todo o seu longo reinado sem tomar banho (Eu sei o que ele fez no verão passado!). Bem, após a explicação sobre o local, visualizei no ato o tal cavalo e disse na bucha: claro que sei onde é; em 1h te encontro lá. Desliguei, me sentindo o próprio filho de Lyon.
Bem embaixo da dita pata esperei dez, vinte, quarenta minutos. Eu já estava começando a achar esses chicos franceses pouquíssimo britânicos, até que eu resolvi examinar se a cara do tal do Louis XIV era amigável (eu só tinha olhos pro tal do cavalo até aquele momento) e, acredite, o pânico foi imediato, porque ao mirar o nosso amigo, vi que ele era, digamos ... ela!! Tudo bem que hoje em dia é fácil mudar de sexo, fazer e desfazer cirurgia, aumentar e diminuir os trem de cima e os treco debaixo; mas, peraí, na época de Louis XIV não existia nem movimento gblt (movimento de gays, berinjelas, lésbicas e talibãs), quanto mais mudança de sexo. Desse modo, aquela mulher que eu mirava, incrédulo, não podia ser nosso amigo Luisinho repaginado, de jeito nenhum. Maldição!! Mais uma vez troquei Asa Sul por Asa Norte!
Pra resumir, eu fui parar debaixo do cavalo errado (opa, isso ficou ambíguo). A tal mulher montada no tal cavalo da tal praça onde eu estava não tinha nada de Rei Sol (nome de guerra de Luís XIV). Ela, a estátua, é, na verdade, a alegoria de um dos rios que atravessam Lyon. No dia seguinte, soube ainda que Luís XIV viveu e morreu macho man, não tinha mudado de sexo não. E o resultado disso tudo é que perdi o programa do sábado, porque não tinha celular pra perguntar onde diabos eu deveria ter ido. Voltei para casa indignado e rezando para que a estátua que certamente farão do Sarkozy esteja montada num porsche prata; aí, dificilmente, vou confundir um cavalo com o outro. E viva o ano do Rubito, cada dia mais perdidim, na França!
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
cleo
Desde que cheguei, tenho tentado nadar. Preciso me mexer, se não, nesse processo de desatrofiamento cerebral, corro o risco de gisellebindchar o resto do corpo. Nessa busca, descobri que aqui existem as piscinas públicas. Para frequentá-las, basta comprar um carnezinho e ir no dia que mais precisar de um banho. Simples assim.
Dessa forma, fiz todo um malabarismo: comprei toalha, óculos, lustrei a sunga e lá fui eu, com minha calça verde-limão, de capoeirista, comprada no Pelô - porque brasileiro adora exibir o negão que habita dentro de si quando ta na França. E, após longa caminhada, metrô, chuva e mais um pouco de caminhada verde-fosforescente, lá cheguei: lugar bonito, art déco; bem francês... (olha eu aí fingindo que entendo desses movimentos de arte; viva o Wikipédia!!).
Depois de colocar a parafernália toda – touca, sunga, óculos, perfume etc. – descobri que o armário precisava de uma moeda, para ser trancado. E essa agora! Saiba que aqui não se faz nada sem uma moeda. Pra tomar café, comprar ticket no metrô, fazer pipi, pupu, popô. Eu já sabia disso (acho que foi a primeira lição que aprendi aqui), mas saí de casa pensando `vou só nadar um pouquinho e não vou precisar de moeda. Não agora.` Mas precisei. Olhei prum lado, olhei pro outro e nada de descolar uma moedinha. Como eu estava fantasiado (faltou só o snorkel pra eu ficar um alien perfeito; só depois reparei que ninguém usava touca ou óculos) tive de vestir novamente a roupa, descer 3 lances (não dava pra descer de sunga), explicar a minha situação e pegar uma moeda emprestada. Foi dureza. Mas eu queria muito nadar.
Quando vi a piscina, pomposa, semi-olímpica, iluminação legal, pensei, é hoje que me esbaldo. Mas como todo lado A tem um lado B, a piscina estava fervilhando de... francês!! Não era um ou dois não. Tinha gente saindo pelo ladrão. Eu nunca vi tanto francês junto. Isso é porque era noite e estava frio. Acho que nem nos dias mais quentes o Parque Nacional de Brasília (a Água Mineral) fica tão apinhado. Eu que achei que encontraria uma raia só pra mim, um professor super solícito e muitas braçadas pela frente. E toda aquela história de que francês não toma banho?? às favas!
Mas eu resolvi enfrentar. Afinal, quando se é estrangeiro, se é meio antropólogo (falando nisso, Lévi Strauss morreu; e eu jurava que ele já tivesse morrido em 1500 a.C. Agora só falta você, Niemeyer. Segura na mão de deus...), então mergulhei...
Você já nadou rindo? Não tente fazer isso em casa, porque você mergulha e glubglub entra água glubglub por tudo quanto églubglub buracogubglub. Mas eu não conseguiaglub pararglub de rirglubglub e quanto mais ria glub glub maisglub bebia áglubguabugbug. Isso porque eu parecia uma piabinha no meio de um turbilhão de francês mo-lha-do. Não conseguia dar uma esticadinha sem atingir o próximo. Cheguei a quase afogar um monsieur que, após ser praticamente glubglubado pelo meu braço, na busca insana por um metro quadrado, me olhou de um jeito esquisito e praguejou qualquer coisa. Ainda bem que meu francês está enferrujado e não entendi. E com toda aquela água fria, enferrujou mais ainda. Era muita desgraçaglub pra um banho só.
Tudo era meio bizarro. Tinha de tudo naquela piscinaglub: velho muito velho; jovem muito jovem, mesdemoiselles, gato, cachorro, croissant. Tinha francesa até maquiada! Eu jurava que era a Cleópatra. Meu Deus, eu vi a Cleo aqui em Lyon !!! Era até elegante, mas maquiada, na piscina? Tarzans, uns dez; uma baleia; eita, vem uma pessoa de boca aberta na minha direção, desvia, desvia, peraí, larga meu pé, respira, respira, glubglub. Embaçou...
Depois percebi, entre risos, glubs e sopapos que as piscinas públicas têm uma função social para os chicos franceses. Eles não vão ali para nadar. Acho que vão pra defender teses (francês adora debate), fofocar (porque todo debate tem um intervalo) ou, o mais provável, afogar a fama de que não gostam de tomar banho. Eu vi. E viva glubglub o ano do rubito na França. (25 nov./09)
Ah, uma informação mais inútil do que o texto acima. Sabe como em francês se diz sair `à francesa` ?: Sair à inglesa. glubglub. Muito bom!
Dessa forma, fiz todo um malabarismo: comprei toalha, óculos, lustrei a sunga e lá fui eu, com minha calça verde-limão, de capoeirista, comprada no Pelô - porque brasileiro adora exibir o negão que habita dentro de si quando ta na França. E, após longa caminhada, metrô, chuva e mais um pouco de caminhada verde-fosforescente, lá cheguei: lugar bonito, art déco; bem francês... (olha eu aí fingindo que entendo desses movimentos de arte; viva o Wikipédia!!).
Depois de colocar a parafernália toda – touca, sunga, óculos, perfume etc. – descobri que o armário precisava de uma moeda, para ser trancado. E essa agora! Saiba que aqui não se faz nada sem uma moeda. Pra tomar café, comprar ticket no metrô, fazer pipi, pupu, popô. Eu já sabia disso (acho que foi a primeira lição que aprendi aqui), mas saí de casa pensando `vou só nadar um pouquinho e não vou precisar de moeda. Não agora.` Mas precisei. Olhei prum lado, olhei pro outro e nada de descolar uma moedinha. Como eu estava fantasiado (faltou só o snorkel pra eu ficar um alien perfeito; só depois reparei que ninguém usava touca ou óculos) tive de vestir novamente a roupa, descer 3 lances (não dava pra descer de sunga), explicar a minha situação e pegar uma moeda emprestada. Foi dureza. Mas eu queria muito nadar.
Quando vi a piscina, pomposa, semi-olímpica, iluminação legal, pensei, é hoje que me esbaldo. Mas como todo lado A tem um lado B, a piscina estava fervilhando de... francês!! Não era um ou dois não. Tinha gente saindo pelo ladrão. Eu nunca vi tanto francês junto. Isso é porque era noite e estava frio. Acho que nem nos dias mais quentes o Parque Nacional de Brasília (a Água Mineral) fica tão apinhado. Eu que achei que encontraria uma raia só pra mim, um professor super solícito e muitas braçadas pela frente. E toda aquela história de que francês não toma banho?? às favas!
Mas eu resolvi enfrentar. Afinal, quando se é estrangeiro, se é meio antropólogo (falando nisso, Lévi Strauss morreu; e eu jurava que ele já tivesse morrido em 1500 a.C. Agora só falta você, Niemeyer. Segura na mão de deus...), então mergulhei...
Você já nadou rindo? Não tente fazer isso em casa, porque você mergulha e glubglub entra água glubglub por tudo quanto églubglub buracogubglub. Mas eu não conseguiaglub pararglub de rirglubglub e quanto mais ria glub glub maisglub bebia áglubguabugbug. Isso porque eu parecia uma piabinha no meio de um turbilhão de francês mo-lha-do. Não conseguia dar uma esticadinha sem atingir o próximo. Cheguei a quase afogar um monsieur que, após ser praticamente glubglubado pelo meu braço, na busca insana por um metro quadrado, me olhou de um jeito esquisito e praguejou qualquer coisa. Ainda bem que meu francês está enferrujado e não entendi. E com toda aquela água fria, enferrujou mais ainda. Era muita desgraçaglub pra um banho só.
Tudo era meio bizarro. Tinha de tudo naquela piscinaglub: velho muito velho; jovem muito jovem, mesdemoiselles, gato, cachorro, croissant. Tinha francesa até maquiada! Eu jurava que era a Cleópatra. Meu Deus, eu vi a Cleo aqui em Lyon !!! Era até elegante, mas maquiada, na piscina? Tarzans, uns dez; uma baleia; eita, vem uma pessoa de boca aberta na minha direção, desvia, desvia, peraí, larga meu pé, respira, respira, glubglub. Embaçou...
Depois percebi, entre risos, glubs e sopapos que as piscinas públicas têm uma função social para os chicos franceses. Eles não vão ali para nadar. Acho que vão pra defender teses (francês adora debate), fofocar (porque todo debate tem um intervalo) ou, o mais provável, afogar a fama de que não gostam de tomar banho. Eu vi. E viva glubglub o ano do rubito na França. (25 nov./09)
Ah, uma informação mais inútil do que o texto acima. Sabe como em francês se diz sair `à francesa` ?: Sair à inglesa. glubglub. Muito bom!
domingo, 22 de novembro de 2009
puro sexo
Flanar significa passear, despretensiosamente. E não é passear em qualquer lugar não. Flanar de verdade é flanar em Paris. Ou em Lyon. Tudo bem que esse novo destino da flanação é por minha conta, uma vez que só se flana de verdade na cidade-luz, mas como estou do ladinho de Paris, o vento que eu senti nos meus cabelos, ao vento, durante o super passeio numa noite qualquer, veio, obviamente, direto de lá. E como, ao longo do percurso, eu respirei o mesmo ar que os chicos parisienses – com 400 km de atraso (mas o que são quatrocentos kilometrinhos??) – então, numa relação de contiguidade, quase metonímica (sempre tive esperança de um dia me apropriar dessa palavra ou derivados), o ar em comum fez de Lyon Paris. E de Paris Lyon. Isso é sexo puro.
Mas o que eu to querendo contar mesmo é que foi deleitoso meu primeiro passeio de Velov, um sistema de aluguel de bicicletas que estimula o uso desse veículo (?) como meio de transporte. E funciona. Na primeira semana, voltei de táxi do centro pra casa, porque tudo parecia distante. Mas hoje volto de bike ou mesmo a pé. A cada dia acho tudo mais próximo. Na verdade, a política de incentivo ao uso de bicicletas nos faz esquecer outras formas de transporte. Estou começando a entender a lógica da cidade (menos a lógica dos textos que tenho lido – help!!)
E aqui se pedala muito. Não importa se de terno, de vestido, de roupa de noite de dia ou se de roupa de dia, à noite. De madrugada também. Ainda não vi uma noiva a caráter pedalando, mas acho que não vai demorar. É engraçado e surpreendente, porque, além de bicicleta, patinete, mobilete, periguete e tudo o mais que termine em –ete serve como transporte aqui. Outro dia mesmo vi um trem que parecia uma coisa: tinha apenas uma roda e andava na calçada. E era guiado por um francesinho de, no máximo, dezessete meses e vinte e nove dias. E aquilo funcionava. Essa subtração do número de rodas dos meios de transporte é uma boa idéia mesmo. Em Ouro Preto deve ser bem útil, já imaginou, subir ladeira de patinete?? Já tô largando o metrô e quero comprar uma bicicleta de ocasião - é como chamam as bicicletas usadas daqui.
Mas, como todo lado A inexoravelmente tem um lado B (inexoravelmente é outra palavra boa, heim!!), na segunda semana, após ter retirado uma bicicleta de um dos milhares postos de aluguel (é super simples), a lua-de-mel escoou lindamente rio abaixo. Isso porque o camelo que retirei, e que era a única bicicleta disponível naquele posto, naquele final bucólico de domingo, às margens do Rhône, estava troncha, coxa e cega dum oi; não respirava e mal falava. Como não consegui encaixá-la de volta, tive de voltar pra casa com um treco que não virava pra esquerda, mal tinha freio e definitivamente destruiu a imagem bucólica do meu primeiro passeio, ao vento. Mal comparando, acho que vivi a rotina do casamento, segundo a qual, o primeiro dia é sempre inesquecível, não pelos mesmos motivos que os dias/anos subsequentes.
Resultado: ao chegar em casa, tive de acorrentar a potranca, porque ela não encaixava onde deveria, fazer uma ocorrência, desenferrujar meu parco francês e escrever uma carta gigantesca explicando tudo. Odiei o inventor do Velov! E, acredite, essa semana descobri que a correspondência voltou!! Agora to na dúvida se vão descontar 150 euros da minha conta. Se isso acontecer, vou ficar em forma, porque vai ser uma semana só a base de baguete... e sem foie gras. Moral da história: flanar mesmo, só em Paris!! E viva o ano do rubito na França. (Dom. 25 oct./09)
Mas o que eu to querendo contar mesmo é que foi deleitoso meu primeiro passeio de Velov, um sistema de aluguel de bicicletas que estimula o uso desse veículo (?) como meio de transporte. E funciona. Na primeira semana, voltei de táxi do centro pra casa, porque tudo parecia distante. Mas hoje volto de bike ou mesmo a pé. A cada dia acho tudo mais próximo. Na verdade, a política de incentivo ao uso de bicicletas nos faz esquecer outras formas de transporte. Estou começando a entender a lógica da cidade (menos a lógica dos textos que tenho lido – help!!)
E aqui se pedala muito. Não importa se de terno, de vestido, de roupa de noite de dia ou se de roupa de dia, à noite. De madrugada também. Ainda não vi uma noiva a caráter pedalando, mas acho que não vai demorar. É engraçado e surpreendente, porque, além de bicicleta, patinete, mobilete, periguete e tudo o mais que termine em –ete serve como transporte aqui. Outro dia mesmo vi um trem que parecia uma coisa: tinha apenas uma roda e andava na calçada. E era guiado por um francesinho de, no máximo, dezessete meses e vinte e nove dias. E aquilo funcionava. Essa subtração do número de rodas dos meios de transporte é uma boa idéia mesmo. Em Ouro Preto deve ser bem útil, já imaginou, subir ladeira de patinete?? Já tô largando o metrô e quero comprar uma bicicleta de ocasião - é como chamam as bicicletas usadas daqui.
Mas, como todo lado A inexoravelmente tem um lado B (inexoravelmente é outra palavra boa, heim!!), na segunda semana, após ter retirado uma bicicleta de um dos milhares postos de aluguel (é super simples), a lua-de-mel escoou lindamente rio abaixo. Isso porque o camelo que retirei, e que era a única bicicleta disponível naquele posto, naquele final bucólico de domingo, às margens do Rhône, estava troncha, coxa e cega dum oi; não respirava e mal falava. Como não consegui encaixá-la de volta, tive de voltar pra casa com um treco que não virava pra esquerda, mal tinha freio e definitivamente destruiu a imagem bucólica do meu primeiro passeio, ao vento. Mal comparando, acho que vivi a rotina do casamento, segundo a qual, o primeiro dia é sempre inesquecível, não pelos mesmos motivos que os dias/anos subsequentes.
Resultado: ao chegar em casa, tive de acorrentar a potranca, porque ela não encaixava onde deveria, fazer uma ocorrência, desenferrujar meu parco francês e escrever uma carta gigantesca explicando tudo. Odiei o inventor do Velov! E, acredite, essa semana descobri que a correspondência voltou!! Agora to na dúvida se vão descontar 150 euros da minha conta. Se isso acontecer, vou ficar em forma, porque vai ser uma semana só a base de baguete... e sem foie gras. Moral da história: flanar mesmo, só em Paris!! E viva o ano do rubito na França. (Dom. 25 oct./09)
Assinar:
Comentários (Atom)