segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

duplo twist carpado

O que é ser francês? É a pergunta do momento do lado de cá. É o atual debate público lançado pelo governo. Gozado é que, enquanto no Brasil ainda perguntamos quem matou odete roitman, aqui se quer saber qual o teor de edith piaf no sangue do povo. Vai uma amélie poulain aí?! Esses chicos franceses são de fato esquisitos. Se eu tivesse de responder a tais questões sobre a identidade francesa, diria que ser francês-homem, machoman, é fazer pipi no meio da rua, em plena tarde, numa avenida movimentada, como se fosse a coisa mais normal da França. Eu vi. Ta registrado no meio das minhas retinas tão fatigadas: no meio do caminho tinha um mijão, tinha um mijão no meio do caminho. De repente isso é chique e eu nem to sabendo.

Já se a pergunta se referir às francesa-sas, aí a coisa muda de figura. Sim, porque to pra ver mulherada mais cheia de coco (leia coCO) chanel. Já to é começando a ficar irritado com tanta polidez. Você mal olha pras criaturas e elas já vão dizendo: pardon pardon ui ui ui merci merci. É biquinho demais pro meu saquinho. Acho que vai ser mais fácil a tal Torre Reiféu passar pelo buraco de uma agulha do mundo da alta costura do que eu ver uma francesa ui ui ui rodar a baiana por aqui (baiano demais??), subir nas tamancas ou mesmo comer com farinha a orelha da outra - como se faz no Nordeste quando a quenga (boa essa palavra) rouba o marido da fulana. Aliás, esse casamento de orelha com farinha me deu uma vontade de comer feijoada...

O fato é que não tem bonjour que chegue para as francesas. Haja polidez. Isso cansa. Eu queria mesmo era ver uma francesa liberar um super mário pum, daqueles mega altos e estridentes, tipo tsunami ratatatá metralhadora duplo twist carpado com mortal na segunda pirueta quarteirão com queijo mega sena acumulada de natal, só para ver como elas se sairiam, refinadíssimas, pardon pardon, dessa embaraçosa situação. Mas acho que elas só cometeriam esse gasoso ato falho, se o fizessem, no Père Lachaise, depois do décimo aniversário de passamento e ainda borrifando parfum pra disfarçar o futuumm.

Mas a identidade francesa tem mesmo a ver é com livros, leitura, debate. Por exemplo, na biblioteca, onde tenho passado praticamente todos os minutos da minha existência tupiniquim desde que atravessei o querido Atlântico, vejo sempre um senhor muito sisudo com dois pares de fones de ouvido: um grandão e outro grandinho. Acho curioso porque ele usa só os fones, sem o aparelhinho que nunca sei como se chama, se aÍ Pode, aÍ Não Pode, MP3, MP8, RPM (esse eu conheço!). E acho mais curioso ainda porque, como ele é slim, a abundância dos fones contrasta com a desabundância de suas formas, embora sempre muito elegantes, visto se tratar de um monsieur francês, na seção de filosofia: o sartre, em fone e osso.

Se bem que ele deve mesmo é estar num estágio avançado de transtorno obsessivo compulsivo (o querido toc), porque, se a biblioteca é tão silenciosa, pra que os tais fones? O lugar é tão pacato que chego a praticamente ouvir a neve lá fora, derretendo (nada de glamour). Inclusive, vira e mexe, escuto, batendo à minha porta, qualquer coisa do tipo: toc toc grurruunhuunhunhu (uma metralhadora?), até que percebo se tratar da minha própria barriga, elucubrando algo que nunca compreendo. Não sei se é ressaca das vagens que tenho encontrado em praticamente todas as refeições (eles a-do-ram vagem! esquisitos...), o efeito tarja-preta das teorias que tenho tentado deglutir ou alucinação pura e simples, mas a minha barriga soltou a língua aqui na França. Tem de fato falado pelos cotovelos, e não é em francês não! Uma vez, srugsgruuuunsgstoooong, lá vem a minha barriguinha de novo querendo meter a colher na conversa: ela fez um barulho tão alto que eu quase respondi, achando que fosse a voz da pessoa com quem eu estava conversando. Aí a luz se fez: minha barriga é ventríloqua! Valha-me. Ainda bem que parei de assistir a filmes como ´Alien - o Oitavo Passageiro´, ´O bebê de Rosemary´ , ´Procurando Nemo´ e afins, se não ia começar a pensar coisas.

E aqui começa o bom e velho lado B de mais um capítulo de minha sofridíssima vida en rose, pois, na última viagem a Paris, onde tenho ido uma vez por mês para um curso (nada de glamour), eu tive um treco (o bom e velho piriri?), em plena jornada de estudos, lá lá, na cidade lux. Na verdade, passei mal durante toda a tarde, mas ainda consegui manter a pose sartreana de aluno atento e não dei ouvidos para minha gruuumgristummm companheira falante. Só me interessavam naquele momento Ari e Tonton (meus amigos Aristóteles e Platão). No entanto, o drama foi me perceber, após a aula, vagando pelos longos e cultuados labirintos subterrâneos do metrô parisiense, passos larguíssimos, ouvindo os artistas exibindo seus dotes musicais, gente descolada pra lá e pra cá, a multietnia sobre a qual conversamos no último texto, e eu, que merda, no meio de tudo isso, pensando só em uma coisa: duplo twist carpado.

Na verdade passei bem mal ao longo da longa noite. Tive até febre - coisa que não me acontecia há anos. Depois fiquei sabendo que fui, acho, vítima de um tal vírus intestinal que estava atacando loucamente a francesada (e eu). Vem não se sabe de onde e vai embora, 24h depois, sem mais nem menos, à francesa, exatamente como fez o querido corpo estranho que visitou meu âmago por algumas horinhas. Essa pontualidade virótica nunca vi em Brasília. No meu querido país, quando um vírus chega, vai ficando, vira amigo íntimo no primeiro encontro e já te convida pra ser padrinho do filho dele no próximo domingo de manhã, com direito a churrasquinho na laje e vista para o mar. Sem chance: vírus que é brasileiro é brasileiro mesmo e gruuumgristummm skindododô não desiste nunca (identidade brasileira ??).

E quer saber? Não sei muito sobre identidade francesa, mas estar na França tem a ver com ouvir a própria barriga na bíblio - além dos pardon pardon 365 vezes por dia -, comer vagem vertiginosamente como se fosse algo normal e hospedar um vírus por 24 horas, nem 1 minutinho a mais, enquanto se caminha a passos larguíssimos pelas galerias do metrô de Paris. Voilà. Por isso e pelos próximos dramas, viva o ano do rubito e sua fiel barriga srugsgruuuunsgstoooong, na França.

8 comentários:

  1. Amei o "efeito tarja-preta das teorias"!! Por que é que a gente se submete a isso? hahahaa

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  2. Quem sabe o fone do "sartre de fone e osso" não é justamente para abafar o ruim "ziriguidum" das barrigas da biblioteca... beijos, querido!! Novamente, amei o texto!!

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  3. Digo, abafar o RUÍDO "ziriguidum" das barrigas da biblioteca... beijos!!

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  4. rurru,
    mais uma vez ri muito... se voce desistir da vida academica, vira cronista que tá tudo certo. bom, eu também peguei esse de 24h e foi aqui no brasil mesmo! até os virus estão com pressa ultimamente... derrubam a gente e já vão para a proxima vitima. será que esse alien na sua barriga não é excesso de vagem? beijos

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  5. ontem eu estava assistindo a comediante americana wanda sykes contar sobre as conversas que ela tem com sua barriga. barriga é coisa complexa, né? já deu um nome prá tua? porque no final, elas são uma entidade à parte...

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  6. Puxa, isso da barriga falante acontece comigo também. Antes de pôr os pés na França, minha barriga era tìmida como as outras partes de mim (ou os outros eus, se preferir). Mas, pouco depois de chegarmos aqui, ela desandou a falar... Serà algo que colocam na comida ?? O que mais me preocupa, nisso tudo, é que estou começando a entender o que ela diz, estou entendendo seus còdigos, sei quando ela reclama de fome, quando ela se arrepende porqe eu comi demais, quando està satisfeita, quando quer apenas conversar ou me pregar uma peça para me encabular na frente dos outros...

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  7. roberto, eu acho que é deleuze demais na sua veia!!! (e retórica demais na minha) alucinação total. hehehe

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  8. eita!!!!! esse tipo de monólogo barrigal acontece comigo também! e é mais frequente quando a dieta é a base de VAGEM: alimento necessário para o desenvolvimento da fala nas barrigas tagarelas. Acho que a solução aí e colocar um repolhozinho para sentir o efeito estufa, talvez você consiga ver uma Francis virarnotétéu um sabonete PHEBO!
    Saudades!

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