segunda-feira, 5 de abril de 2010

obesidade mórbida

Cada um tem sempre uns pecaditos a serem pagos neste mundo de meu deus. Aliás, minha vida tem sido uma penitência só, desde que cheguei. Acho que já estou com crédito para as próximas encarnações, que, espero, sejam menos árduas que a de doutorando na França. Por exemplo, aqui se é obrigado a beber água da torneira. Ora, isso além de deselegante é selvagem. E, acredite, por essas bandas, o bebedouro, esse obscuro objeto de desejo, é tão desconhecido quanto as estranhas mercadorias oferecidas pelos ciganos aos habitantes de Macondo. Você que conhece o Cem anos, de Garcia Marques, deve se recordar das primeiras cenas do livro, principalmente do espanto dos Buendía, os moradores daquela aldeia, ao descobrirem, sempre embasbacados, as mercadorias insólitas que eram levadas pelos tais ciganos. Me lembro de como eles ficaram maravilhados quando viram e, sobretudo, tocaram pela primeira vez o gelo que lhes era oferecido como mercadoria raríssima. Aquilo parecia queimar, parecia vivo e era incrível, maravilhoso. Mais chocante ainda foi quando se assustaram com a boca que saía nas mãos dos ciganos-vendedores: era a boa e velha dentadura. Tudo era aterrorizante e não menos sensacional: fantasmático. As 7 Faces do Dr. Lao ?

Mas, fechando parêntese e voltando ao bebedouro, preciso esclarecer que aqui em Lyon já existe um objeto chamado garrafinha de água mineral, mas eu não vou ficar comprando água em garrafinhas, porque dá muito trabalho; sem exagero. E se a garrafinha for garrafona, pior ainda, porque é pesado transportar. Aqui não tenho carro. Só ando de bicicleta ou a pé (Eh, croissant é doce, mas não é mole não!). No final das contas todo mundo diz que a água de torneira por aqui é potável, mas como bom brasileiro eu desconfio, e como bom estudante sem dinheiro pra rasgar, bebo. E finjo que não é comigo. Uma vez, veja o absurdo da situação, flagrei um menino atracado com uma coisa no banheiro. Ele estava ajoelhado e, curvado, sugava vorazmente algo protuberante. Aquilo foi estranho. Muito estranho. Só depois percebi que o momento kama sutra tava rolando com a torneira da pia. Tudo isso porque Lyon, apesar de ser o berço da sétima arte, a cidade dos irmãos Lumière - inventores do cinema -, ainda não descobriu o bebedouro. Precisamos dar uma aula de civilização para esse povo. Esses chicos franceses...

No entanto beber água da torneira não é nada se comparado à maior expiação que tive de encarar por causa dos meus pecados avoengos (boa essa palavra!). Chama-se: TTT ou Tratamento de Texto para a Tese. E, tenho certeza, me proporcionou bons cem pontos no carnê do baú celestial. O tal TTT é o nome do curso que fui obrigado a engolir. E engoli. Até a primeira aula eu não sabia muito do que se tratava. Achei inclusive muito chique. Mas logo nos primeiros momentos da primeira manhã gelada descobri que era um curso de, acredite, Word 2003! E essa agora... Quem me conhece sabe que o meu apego pela informática é proporcional ao amor do Zidane pelo Materazzi na final da Copa de 2006. Na real, eu odeio quem ama o mundo da tecnologia. Eu odeio a história de baixar programas. Eu odeio réguas de tabulação. Eu odeio saber qual é o novo antivírus. Eu quero a Idade da Pedra (uga-uga), quando nossos tratratratravós pichavam as cavernas. Pelo menos não tinham de escolher fonte, tamanho, itálico, folha de estilos. E quer saber, tem coisa mais bizarra do que aquelas janelinhas com conselhos do Windows?? Elas sempre aparecem gentilmente e com sorriso nos grandes lábios virtuais [opa] perguntando se você ta precisando de alguma coisa quando você está louca e desesperadamente precisando de várias coisas mas sabe que a pororoca da `solução` que eles vão te oferecer não vai trazer a resposta de que você precisa para resolver a pururuca do problema que qualquer pessoa qualquer recém-nascido MENOS VOCÊ saberia resolver naquele momento. (Agora pode respirar, leitor; é que eu fiquei um pouco nervoso. Foi mal).

O tal Tratamento foi brabo. Mas, como disse, encarei. Não teve jeito. E dá-lhe expiação! No entanto o curso teve momentos burlescos. Por exemplo, nunca vou esquecer a cara do professor quando nos chamou à frente da sala para nos mostrar algo que parecia fascinante, incrível (As 7 Faces do Dr. Lao??). O querido monsieur arregalou os olhos e, quase em êxtase, nos ensinou, em bom francês, a arte do ... Ctrl C / Ctrl V (os queridos `copiar e colar`)! E não tem Garcia Marques que possa descrever a cara do tio nos ensinando tal técnica. Ele olhava o Mac (McIntosh, para os in) com tal fascínio, manejava o teclado com tanta paixão que eu julguei não estar compreendendo se o que ele estava querendo dizer era de fato o que ele estava dizendo (tava ensinando a copiar e colar mesmo?! Qualé, jacaré...). Era o próprio cigano fazendo o truque da dentadura. Vivi meus quinze minutos em Macondo. Pior é que ele repetiu esse gesto de nos chamar à frente outras vezes, para exibir o mundo de Oz da informática. Nunca achei que os franceses amassem tanto o tal control C control V. Esquisitos...

E, para não perder o costume, o lado B da história apareceu já no segundo dia de aula, quando o cigano-monsieur solicitou um pequeno exercício super complexo de, adivinhe, mudança do formato da página e numeração do rodapé... O fato é que, após ter-me demorado exaustivamente nas preliminares do dificílimo exercício, na hora agá eu mirava a tela do alienígena computador e não sabia nem por onde começar. De repente aquela atividade ridícula se tornou um teorema que nem Einstein resolveria. Em suma o castigo divino não tardou. Eu, que tava achando tudo meio idiota, créu, não consegui fazer o primeiro exercício. Resultado, todo mundo fez o dever de casa, ali, em menos de 1 minutinho, menos moi. O pior é que o monsieur começou a me olhar esquisito quando ele percebeu o estado lastimável em que eu estava: mais vermelho que o vermelho do tomate mais vermelho da vermelha China. To começando a achar que beber água da torneira na posição 38 do kama sutra é menos traumatizante.

Eu simplesmente perdi o ctrl da história.

E não para por aí não. O diabo do curso foi de fato se complicando e atormentando a minha vida. Eu fui ficando tão tenso com o efeito bloody mary do primeiro exercício que corri às livrarias da cidade para comprar guias de apoio para uso do Word 2003. É bom esclarecer que eu praticamente parei de dormir - e de respirar -, tamanha a minha tensão, durante o tal TTT (ou TPM??). Mas a minha busca de conhecimento não foi em vão, pois achei um livro do tamanho da minha ignorância: Informática para antas. Bem, não é exatamente assim que se deveria traduzir, mas, em bom ctrl português, é a melhor tradução das minhas angústias naquele momento dramáaatico. Comprei logo o livro da versão Windows 2003 e outro com a versão 2007. Claro que não li nenhum dos dois, mas valeram como ctrl tranquilizante para minhas ctrl desventuras en France.

Pior: em cada aula eu era praticamente o último a concluir as tarefas (socorro!). E já que estamos nunca conversa super mário franca devo confessar que o meu maior consolo ao longo da vinte e tantas horas de ctrl agonia regadas a Word 2003 é que na turma havia um aluno que sempre terminava depois de mim. Isso quando ele conseguia terminar (ele deve estar no sétimo ou vigésimo nono ano de doutorado e pelo jeito sem previsão de conclusão da tese; eu estou no primeiro meio ano, se serve de alento). O fato é que eu nunca agradeci tanto a Alá a existência de um cristão (na verdade, ele era islâmico), nesse pedaço do planeta onde to pagando meus pecados. Engraçado é que em cada aula a primeira pessoa que eu procurava na turma era o meu coleguinha. Afinal, quando se quer se sentir mais magro, basta ficar ctrl diante de uma pessoa ctrl mais gorda do que você. Eu acho que serei eternamente grato ao meu amigo portador de obesidade mórbida. E viva ctrl o ano do rubito, copiando, colando e super adepto da prática do kama sutra, na França.

5 comentários:

  1. Rubito, estou amando suas ctrl histórias! E vou dizer que vc engana bem heim, quem olha "xu-ra" que vc é um homem tecnológico. Beijocas potáveis!
    Eneida

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  2. Eu vou dar um ctrl C ctrl V no comentário da Eneida aqui em cima! Também adoro essas histórias francesas!! :)

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  3. adoooooro quando você faz esse tipinho falso modesto, esbugalha os olhos e JURA que nada sabe. quem não te conheça, que te compre! bisous!

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  4. putz, falou tudo... o estilo come quieto do rubens foi desmascarado. tre bien mon ami!
    beijos,

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  5. Ola! estou descobrindo o seu blog, é legal... Infelizmente não entendo tudo (+/- 60%) pois o meu português não é tão avançado.
    Não entendi super bem a coisa sobre a mulherada francesa e Super Mario :D e parece que tem muitas brincadeiras impossíveis de entender para mim, por causa de mon manque de maîtrise de la langue portugaise. Mas enfim!
    Temos um roteiro simétrico e nossos blogs são complementários! Eu tenho vários choques culturais também com a cultura brasileira (a maioria das vezes, são choques positivos). Na verdade, não quero mais voltar para Lyon...

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