A minha relação com o esporte mais amado do Brasil, o tal futebol, pode ser resumida em dois momentos marcantes. O primeiro foi quando fiz um gol num campinho improvisado perto da casa da minha mãe, lá pelos idos 80. Na verdade até hoje não sei que diabos eu estava fazendo ali; mas, preciso confessar, a sensação de emplacar um gol é de fato extasiante. Já o segundo momento inesquecível foi quando marquei outro gol; esse contra. E vou te contar, não tem mico maior (por isso não gosto dos tais miquinhos...). O povo do teu time quer beber o teu sangue ali mesmo (cabidela?), num ritual para etnógrafo nenhum botar defeito, e o povo do outro time, fazendo aquelas coreografias ridículas (dancinha da motinha, da mariazinha etc.) vem correndo te cumprimentar, com sorriso debochado. Acho até que esse segundo gol foi o responsável pelos divãs que andei freudiando vida afora. Ai meu superego.
Na real, nunca tive pelos esportes a empolgação típica dos atletas de plantão. Até porque, quem é viciado em atividade física dorme cedo, acorda cedo, faz aquilo geralmente cedo para, sempre cedo, praticar seu esportezinho de cada-dia, cada dia mais cedo. Nem do cocoricó matinal eu gosto. Tô longe de aderir à geração saúde. Talvez, lá na casa dos noventa, eu me arrependa do meu não apego aos esportes e comece a fazer cooper, como aqueles velhinhos que vemos correndo desesperadamente toda manhã e todo final de tarde em parques, nas ruas, nas calçadas, em qualquer lugar. Eu realmente nunca entendi o que eles pretendem com aquela pressa toda, pois, correndo ou não, as canelas estarão esticadas ad eternum antes da próxima missa do galo. Isso quando já não ficam espalhados no meio do caminho, esperando, espasmódicos, a ambulância que sempre chega 32 segundos depois do tarde demais. Sem pressa aí, ô vovô.
E já que o assunto é esporte, após oito meses vivendo em Lyon, resolvi vencer o meu trauma do gol contra e sair da biblioteca onde fico boa parte do dia escutando a minha barriga, para viver um final de semana super mário atlético. Acabei sucumbindo ao convite de, adivinhe, esquiar nos chiquetésimos Alpes franceses. Desculpaí, eu sei que, com tanta criancinha morrendo de fome em Burkina Faso (onde?), fica meio esnobe ficar falando essas coisas de Alpes e tals (eu adoro o tal do `e tals`), mas eu juro que por aqui isso não é sinônimo de status, Louis Vuitton e Cia (`Cia`não é C&A não, viu). É preciso esclarecer que Lyon fica exatamente na região dos Alpes, centro. E a tal estação de esqui fica a 2 horas da Universidade onde moro. Tipo Brasília/Piri. Detalhe, a saída estava prevista para 5h30 da matina (eis a prova da minha `teoria do cedo`, no estranho mundo dos atletas) e, por isso, nem dormi, porque, na noite anterior, eu tinha saído para praticar meu esporte desce-mais-uma preferido e cheguei em casa menos de duas horas antes do horário de ressuscitar para praticar a tal da atividade no gelo. Uma fria. Acho que teria sido mais divertido enfiar a cabeça no freezer.
Eu nem vou dizer que aqui começa o lado B dessa história, porque ela tem, na verdade, dois pés esquerdos. É lado B pra tudo quanto é lado. Esse papo de esquiar não me empolgou em nenhum momento, para ser sincero. Mas eu fiz uns cálculos e concluí que já era tempo de tentar tirar o meu traseiro da cadeira da biblioteca, se não o coitado ia criar raiz. Por precaução, peguei a minha calça dins e fui. E a palhaçada já começa aí, porque eu era o único de jeans na estação de esqui. Na verdade eu era o desencontro em pessoa: calça errada, tênis errados, casaco caríssimo da Galeria Lafayette errado (voltou manchado, tadinho), luva emprestada errada: eu era o zé bunitim em pessoa. Só o percurso de ida já foi traumático, pois, no momento de entrar no carro, o guia apontou para um cantinho onde não cabia nem um grilo e, olhando para mim e para os três mulherões que iriam naquele grupo, sentenciou: `O menor vai ali!`. E adivinhe quem, naquela madrugada de jesus cristinho, era o menor no meio de uma russa, uma siberiana e, vejam vocês, uma brasileira de quase 2m ? Viajei humilhado, naquele naco de espaço. Isso sem considerar o sono de lascar que me assolava; eu não tava de fato dando a mínima para as lindíssimas montanhas de gelo que me observavam e cochichavam, rindo, algo que eu já julgava saber: o que cargas d´água eu estava fazendo ali, no meio de atletas praticamente olímpicos ?!
O local da pousada era de fato um cartão postal. Mas eu fui ficando tenso, porque, após a chegada, todo mundo foi trocar de roupa (menos eu) e começou a aparecer fantasiado: super óculos, super esquis, calças super equipadas, super casacos, toucas super, luvas, croissants; e eu, nada. Eu aluguei um esqui, é verdade, mas não ajudou muito a disfarçar. Isso sem falar que a tal da bota pesava trezentos quilos e cada esqui tinha uns 5 metros (esse povo é louco!). Já na estação o tal instrutor falou três ou quatro palavras para os três ou quatro iniciantes (eu entre eles) e au revoir. Os outros do grupo já eram esquiadores de outros carnavais e, óbvio, nem passaram perto dos pobres mortais iniciantes. Me senti numa cena do Perdidos nos Andes.
A primeira lição era descer uma ladeirinha de nada, sem cair, óbvio. O fato é que, enquanto eu me preparava para o desafio, me arrependia de todas as leituras que não fiz daqueles clássicos da auto-ajuda, do tipo `Superando desafios`,`Como se tornar um vencedor pitbull`, `Amputados vencedores`[ai]. Percebi ainda que, em momentos difíceis como aquele, fé era um item tão importante quanto a pose de esquiador. Figa, fitinha do Pelô, totem; qualquer coisa serviria para ajudar a encarar aquela descidinha sem tanta dor no coração. Acho que desejei até uma imagem do santíssimo made in brazil Padim Ciço, que de gelo nada entende, coitado. Eu tava mesmo desesperado. Lembro ainda que, antes de começar a deslizar, ainda tive tempo de sai-da-freentee xingar pqp pqp pqp a mãe do inventor dos esquiiiis. Brumpt.
É óbvio que uma pessoa que não sabe nem chutar uma bola (eis a verdadeira verdade) jamais conseguirá escorregar garbosamente ladeira abaixo com uns trecos amarrados nos pés, sem saber frear ou virar pra direita/esquerda. Acho que até os velhinhos adeptos do cooper se sairiam melhor do que eu, tamanho o meu desajeito. E tome (des)aventura. O pior é que, ao longo do primeiro dia, sem desgrudar a cara do chão gelado, eu ficava de soslaio observando os poucos iniciantes do meu grupo e, preciso confessar, voduzando, torcendo para que eles, tomara-que-caia-tomara-que-caia, também acariciassem o chão. É a tal velha história da obesidade mórbida (vide texto anterior). Só que o obeso ali era eu. Os outros foram super bem, obrigados.
E, pior, ao voltar do almoço, a quatro mil metros de altura, ainda fiz o favor de retornar com os bastões trocados (voltei de teleférico, né). Agora, reflita, se com os bastões de meu exato tamanho eu mal conseguia me manter de pé, imagine agora com um bastão bem menor do que o outro. De repente eu fiquei coxo! Coxo e roxo: de frio e de hematomas. Resultado, lá pelo meio da tarde, e já ignorando todos os livros de auto-ajuda ignorados, padins ciços e mandingas, dei um basta naquela situação vexatória: larguei todos e fui à caça do álcool perdido, para superar os traumas (físicos e psicológicos) adquiridos num lindo dia nos Alpes. No final das contas, troquei o gelo do chão pelo frio na barriga (cerva belga, geladíssima). Viva as decisões sábias.
À noite ficamos numa pousada assistindo a um jogo de rugby. E, olha, aquilo é mais hard do que Calígula: todo mundo se pegando loucamente. Nunca tinha visto uma partida desse esporte. Uma sem-vergonhice, isso sim. Todo mundo pula em cima de todo mundo, se apalpa, beija as partes do outro, estica, puxa. Sei não... E, para completar o meu final de semana, a programação da manhã seguinte era, adivinhe, mais montanha gelada! Resignado, mantive minha sensata decisão da tarde anterior e não quis mais esquiar. Continuei praticando o levantamento de copos, o qual, diga-se de passagem, ficou prejudicado por causa de minha dor no braço, pois no dia anterior eu fiz tanto esforço para me levantar centenas de vezes do chão que os braços, em vez das pernas, é que amanheceram doloridos. E viva o ano do rubito, sai da freeente, nos Alpes, na França.
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rararararararara
ResponderExcluirUltimamente meu esporte favorito é rir de você, Rubito! Desculpa...
kkkkkkkkkkkkkk Maravilha de post!!!
E viva o ano-do-rubito-na-frança!!!
E viva a Pirinópolis Lyonense!!!
Isso é que é entrar numa fria. KKKKKKKKKK
ResponderExcluirRubito, deixa estar que em breve estaremos praticando "desce-mais-uma" por aqui, viu?
ResponderExcluirnossa menino... que fria tu se meteu. fiquei até com dó, depois de rir 3km, óbvio!
ResponderExcluirSua melhor crônica aqui: veja que esquiar serviu para alguma coisa.
ResponderExcluirri muitíiiiiiiiisssimo. Sua cara... esses acontecimentos.
Ola Rubito, descubri seu blog! Me parece interesante, amigavel e uma analise perspicaz da cultura francesa. Ele merece mas que uma olhada rapida, entao logo vou te rever para o ler mas aos pormenores. Entretanto, eu te convido ao meu blog:
ResponderExcluirthelightseed.blogspot.com
Tambem visita o de minha esposa Mirian: http://cafe-pontocom.blogspot.com
Somos profesores de idiomas e traductores e gostamos muito de ler as diferentes impresaos pessoais dos brasilleiros na Franca e no Canada frances.
Alors a bientot, j'espere.
um abraco
Jean-Louis.
Mais engraçado que a Era do Gelo... kkkkk
ResponderExcluirHahahahha... valeu pelo brasileira de quase 2 metros! Faltam 25 cm p'ra isso! Muito bom, muito bom.
ResponderExcluirQuerido Rubito,
ResponderExcluirRi demais! Sem querer rir da desgraça alheia, é claro, mas já rindo... Foi incontrolável... Quem mandou ter uma narrativa excelente e envolvente?! Adorei!
Um beijo da Fabiana.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirBueno Rubens... ça fait 5 mois que tu n'as plus rien publié... tes aventures ou mésaventures lyonnaises sont-elles devenues si rares, ou bien est-ce les transcriptions et les traductions de tes données qui te font oublier ton blog ?? en tout cas ça manque une petite histoire que tu nous contes avec humour ici ;-) a++
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